13 setembro 2010

O Estudo da Representação Humana

By Fátima Alfredo


"Sabemos que a história da figura humana se encontra atravessada pelo ato de conhecer o universo pelo próprio homem. Nesse sentido, ao revermos nossa história, nos vemos a identificar e compreender as diferentes configurações culturais, conformadas por percepções sociais, filosóficas, religiosas e científicas. Subjacentes ás manifestações expressivas de cada cultura, projetos imersos na consciência perceptiva que tais sujeitos produziram sobre o mundo, encontram-se as projeções do homem. Assim, ao se projetar, o homem se lança á aventura o seu lugar no mundo." (Derdik, 1990)

*(Figura ao lado: traços by Alexandre Greghi)

Durante toda nossa história, o corpo humano nunca deixou de ser uma encruzilhada de acontecimentos culturais e sociais, animais e psíquicos. O corpo é e sempre será um complexo de símbolos que vai além de si mesmo. Assim sendo, " a unidade efetiva das histórias era a figura humana" (BAXANDALL,1972), seguramente existe sobre ela, um incontestável inventário reunido durante milênios, constituindo um valioso patrimônio á História da Arte.

O estudo de modelos que ainda é exercício obrigatório para a preparação de profissionais ou amadores cujo intento é representar figurativamente o ser humano, passou a ser tão valioso na arte da concepção (Raisionné) no inicio do século XX, quanto à concretização da obra em si. Segundo Baxandall "toda figura desenhada tem o propósito de representar algo", então se tornou comum, colocar à venda, séries de cátalogos Raisionné de artistas famosos.


No período Renascentista, o estudo das proporções humanas, ainda segundo BAXANDALL, era bastante primário em relação às regras matemáticas já conhecidas pelos comerciantes. Como regra de ouro, por exemplo.

O estudo do modelo humano enquanto disciplina fundamental à formação artística permanece com alto valor pedagógico e empreendedor para tais aptidões perceptivas. Exemplo de um quadro de disciplinas atualmente lecionadas nos diversos cursos da EBA/UFRJ: (BAF 205 - Modelo Vivo I - BAF301 - Modelo Vivo II - BAF 103 - Desenho Anatômico I - BAF 107 - Desenho Anatômico II).



Na Academia Francesa, o estudo do Modelo Vivo dava-se do geral para o particular. O aprendiz tinha como questão, a apreensão de todo o conjunto. Primeiramente fazia-se o esboço com linhas principais a serem trabalhadas. Havia também o que hoje chamamos de 'Pose de Minuto', exércicio fundamental para uma compreensão rápida da figura posada. Esses alunos já traziam incutidos consigo o necessário ' Ideal de Beleza' dantes adquirido com o estudo das gravuras. BOIME cita que " [...] obviamente, antes da aparição e desenvolvimento da gravura, a única opção possível para os estudantes era a cópia dos desenhos de mestres, o que testemunham os tratados mais antigos, como o de Cenino Cennini [...]. " Em seguida, os alunos dedicavam-se à cópia de modelos em gesso. Chamados de modelos tridimensionais. Depois então, passavam a copiar pinturas originais de alguns grandes mestres.


Na AIBA, o promotor desse legado foi Nicolas-Antoine Taunay, que desde 1834 ao ocupar o cargo de diretor da Academia, promoveu uma reorganização da sua estrutura de ensino. Baseando-se nos moldes da Academia Francesa, implantou aqui, as disciplinas de Modelo Vivo e as aulas de Anatomia.


Os alunos daqui também eram iniciados estudando cópias de telas ou estampas vindas da Europa, apesar da distância cultural existente entre os continentes, repito BAXANDALL:

"[...] as capacidades de que somos mais conscientes não são aquelas que obsorvemos, como todo mundo durante a infância, mas aquelas que aprendemos de modo formal, com esforço consciente: aquelas que nos têm sido ensinadas. [...]"

Este primeiro momento era chamado de estudos planos. O uso de gravuras tornou-se mais usual devido às dificuldades de se conseguir modelos originais. O M.D.J.VI guarda um grande acervo dessas gravuras, que ora serviram para formar o elenco conhecido no mundo cultural do país. Depois, os aprendizes se davam aos estudos de partes do corpo humano para logo em seguida começarem o desenho de corpos completos, conhecido como 'academias'. O esttudo
se completava com desenhos de moldes em gesso e até de cópias originais greco-romanos.


As aulas de Anatomia e Fisiologia das Paixões, que eram aulas teóricas e práticas imprescindíveis para o conhecimento dos ossos e músculos do corpo humano, eram aplicadas logo após os alunos terem feito a disciplina doe Modelo Vivo e consistia em grande peso para a formação acadêmica dos matriculados nessa sessão. Sendo que, das aulas de Modelo Vivo somente poderiam participar alunos, artistas e professores designados pelo Corpo Acadêmico, com licença especial do Diretor.


Esta disciplina foi criada em 1831 e rea ministrada na Academia Imperial de Belas Artes por médicos e obrigatória aos alunos de Arquitetura, Escultura, Pintura de Paisagem e Pintura Histórica. Cabia ao professor de Pintura ou Escultura escolher variados biótipos humanos para as aulas. Só depois de finalizada tal etapa, ficava o aluno habilitado a cursar as disciplinas seguintes.


"[...] não há maior dificuldade que a figura humana, e o artista que toma a si a responsabilidade de guiar os jovens artistas deverá continuamente observar que não se desviem d'esse fim: a figura humana [...]." (Bernardelli, 1980)

Em carta enviada ao aluno Vitor Meirelles, ganhador de um prêmio de viagem à França, Manuel de Araújo Pôrto-Alegre suscita que "estude o nu, estude anatomia, estude bem o desenho, e veja se toma Mr. Delaroche por mestre, que é hoje o pintor o mais filosófico e o mais estético que eu conheço.(...) Estude Anatomia e Desenho, porque nossa escola está muito fraca no Desenho."

Para a antiga academia classicista do inicio do século XIX, o bom desenho era fundamental e valia, além de exposições, prêmios em viagem. O estudo da observação da figura humana continuou com considerável importância no currículo dos cursos supracitados mesmo após as Reformas é até hoje nos cursos que ainda vigoram na atual Escola de Belas Artes.


O corpo é uma expressão representativa e sua apreensão através das formas desenhadas parece devolver-nos a certeza de que somos um. Mesmo nos fracionados em corpo e alma, em barro e luz, em carne e espírito, em eu e outro, etc.


SOBRE O EPÍTOME:


O "Epítome de anatomia relativa às bellas artes seguido de hum compêndio de physiologia das as paixões e de algumas considerações gerais sobre proporções com as divisões do corpo humano; oferecido aos alunos da Imperial Academia das Bellas Artes do Rio de Janeiro" (M.D.J.VI n°. 0039) servia bem como manual completo da época sobre a Anatomia e o Estudo da Fisionomia Humana.



Escrito por Charles Lebrun, baseava-se nos principais tratados anatômicos aplicados na Academia Francesa desde o século XVII e foi traduzido em Português por Taunay em 1837, trazendo 'Taboas de XI e XII' faz importantes e interessantes estudos sobre o movimento dos músculos nas paixões da alma no compêndio sobre o êxtase. "[...] e o grão máximo de admiração. Quando a este sentimento se une a veneração, e que o seu objeto meramente intelectual não ocupa senão o espírito, a cabeça se deita do lado esquerdo; as sobrancellas e a pupilla se dirigem diretamente para cima; a boca fica meio aberta, com os seus cantos um pouco elevados. O resto do semblante se conserva no estado natural [...]". (LEBRUN, 1837, p.12)

Dividi-se em estudos sobre a Osteologia, da Mitologia e da Filosofia das paixões. A primeira parte traz estudo sobre a Osteologia. Acompanha, em seguida, taboas sobre o esqueleto e depois sobre a mitologia. Em seguida, o compêndio trata da Fisiologia das paixões e ainda, considerações gerais sobre o estudo das proporções do corpo humano. Segundo Elaine Dias " a obra é composta das principais teorias artísticas relacionadas à anatomia utilizadas na Académie Royale de Peinture et Sculpture no século XVII, embora haja uma pequena parte relativa ao século XIX advinda do dicionário de Millin, dando especial ênfase à questões das proporções."

A aplicação por parte dos alunos desses subsídios teóricos e práticos lhes dava consistência na e laboração e moldagem de obras bi ou tridimensionais. Mostrando-se presentes na construção dos resultados plásticos e, capacitando-os, inclusive, no mais elevado gênero de feituras de peças de pleno vulto, formando também exímios avaliadores, professores e artistas.

Aplicação na Escultura


O estudo do corpo humano é essencial para se formular uma obra escultórica visto que essa se apresenta com diversos ângulos a serem lapidados. Daí, a necessidade dos estudos de Modelo Vivo, Anatomia e Fisiologia das Paixões.

O escultor tem por obrigatoriedade, conhecer o mecanismo de funcionamento da anatomia humana. Haja visto que desde a Renascença, muitos artistas da época já mostraram interresse pelo estudo do corpo humano.

A aplicação na Escultura, do conhecimento Anatômico e Fisiológico dá-se mesmo em obras supostamente abstratas. Veja-se que no Construtivismo, mesmo tendo sido a escultura mudada em sua concepção de ser esculpida, inserindo -se nela, materiais diferentes dos tradicionais, indo assim a idéia de Anatomia estará presente.

Apesar de todo esse pré-conceito sobre escultura escultórica figurativa, não é afastado o livre-arbítrio para a imaginação criadora. Ao contrário, o conhecimento das disciplinas permite aplicabilidades de conotações 'românticas' e até o uso de pulsões mais subjetivas, onde tal aprendizado nas aulas de Fisiologia das Paixões e anatomia mostra-se presentes nessa construção, acarretando aos bons resultados plásticos. A figura ganha mais realidade física, fazendo-se "adequação do movimento das circunstâncias mentais, como o desejo, a cólera, e a dor. Os movimentos e as atitudes devem estar de acordo com os acontecimentos da alma." (VINCI, Leonardo da)

Para marcar bem a caracterização de uma figura escultorica, prima-se em trabalhar: bem o rosto a ser esculpido.

[...] É verdade que o rosto fornece indícios sobre natureza dos homens, seus vícios e temperamentos. As linhas que separam as bochechas dos lábios e aquelas que marcam as narinas e circundam os olhos indicam claramente se o homem é alegre e ri com frequência. aqueles cujas faces só possuem algumas dessas marcas se entregam ao exercício do pensar. Aqueles cujas faces estão profundamente marcadas são brutos, irascíveis e irracionais. Aqueles que têm a fronte sulcada por linhas horizontais profundas são repletos de tristeza, seja ela secreta ou declarada.

Porém, sabe-se que este é um trabalho bastante complexo. Aí devem estar bem explícitos os códigos de expressão facial apreendidos nas aulas de Fisiologia e Anatomia. Tão importante quanto à boca, são os olhos. Neles deverá estar expressos toda subjetividade representada na escultura." (da Vinci)



Outro cunho fundamental escultórico são as mãos. Caso uma figura apareça envolta em vestimentas, ficará à mostra as mãos e o rosto. Concentrar-se-á, ai, nessas duas peças, toda a expressividade da figura esculpida.

Tão fundamental é para o escultor o aprendizado da representação humana, que sem ela, os escorços característicos que dão às esculturas o movimento necessário e a sensação de tridimensionalidade, não poderiam ser aplicados.


Independente do tipo de representação, a escultura tem que representar quaisquer sentimentos com a mesma nobreza de expressão e adequação às formas subentendidas.

A estatuária romana deixa bem evidente ao observador, a retratação de um magistrado, um imperador ou deus.


No sécul XIX era comum o procedimento do 'vazado'. Tal experimento era obtido através de um molde onde se submergia o corpo a ser esculpido em uma massa bem líquida que ia endurecendo lentamente. A difusão desta prática em alguns ateliês induziu a dúvidas quanto à legitimidade criadora de certos artistas, pois os escultores, que mesmo não usando de tal artifício conseguiam resultados bastante semelhantes, eram confundidos com os usuários desta prática fácil.


Ao usar este Artigo, mantenha os links e faça referência ao autor: O ESTUDO DA REPRESENTAÇÃO HUMANA publicado 09/07/2010 por Fátima Alfredo em http://www.webartigos.com/